E, mais uma vez, no nascimento do Senhor, os milagres se tornaram manifestos pela proclamação aos pastores e pela chegada dos Magos guiados pela estrela. Mais tarde, a Virgem Santa revelou-lhe a Anunciação do arcanjo. No entanto, no momento em que o arcanjo fez a Anunciação, ninguém soube, mas ela foi até sua parente Isabel, que ela imitava em feitos virtuosos, a fim de que pudesse saber que as palavras pronunciadas pelo anjo acerca de Isabel eram verídicas, e que ela também concebera um filho.
Quando ela chegou à casa de Isabel, e esta ouviu a voz de sua saudação, de repente a voz do Verbo, a lâmpada da luz, o Profeta da misericórdia admirou-se no ventre de sua mãe e ouviu a voz da sua saudação e, agitando-se no ventre, demonstrou uma espécie de homenagem e reverência ao Rei que havia de nascer (cf. Lc 1, 41), que por ele seria batizado, para mostrar que seria um Profeta, o Precursor e o Batista. Por isso sua mãe também a proclamou Mãe do Senhor, e exclamou em alta voz e disse:
Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!
E a que devo que a Mãe de meu Senhor me venha visitar? Eis que quando a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança em meu ventre saltou de alegria. E bendita é aquela que acreditou que seria cumprido o que lhe foi dito pelo Senhor (Lc 1, 43–45).

Depois disso, ela explicou tudo sobre si mesma à Mãe do Senhor, a punição da esterilidade e o sacerdócio do seu marido Zacarias, a anunciação pelo anjo ao incensar com o turíbulo, e o mutismo dele, que, embora não permitisse a Zacarias falar, foi, porém, explicado a Isabel pelo marido, por escrito (cf. Lc 1, 7–23). Mas as palavras de Isabel à Virgem foram verdadeiramente reveladas a ela pelo Espírito Santo, como diz o Santo Evangelho: Isabel encheu-se de Espírito Santo e exclamou em alta voz e disse: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1, 41–42).
Pois foi revelado a ela pelo Espírito Santo que a concepção de Maria foi sem semente e sem concurso de homem. Foi por isso que ela o chamou fruto do seu ventre, pois a substância de seu corpo santo era somente do ventre dela, e não de semente alheia. “Bendito é o fruto do teu ventre, pois Ele é o verdadeiro fruto, o alimento do mundo, como testemunha Davi: Todos te olham para dar-lhes alimento no tempo oportuno. Tu o dás a eles, e eles se alimentam. Ergues a tua mão e tudo enches com a doçura da tua vontade (Sl 144, 15–16). E, portanto, Ele mesmo nos deu o alimento espiritual, seu corpo e sangue santíssimos e preciosíssimos. Este é verdadeiramente o fruto de teu bendito ventre, ó Virgem Imaculada, que desfez a maldição que caiu sobre nós pelo fruto da desobediência. Esse fruto nos tirou do paraíso, mas aquele fruto abençoado do teu ventre nos abriu a porta do paraíso e, mais ainda, nos levou ao céu e nos chamou à herança do reino dos céus”.
“Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Pois os frutos das outras mulheres estavam sob a maldição do pecado original de Adão e Eva, e pelo casamento carnal e pela corrupção do pecado ingressaram no mundo. Mas só o fruto do teu ventre é bendito, pois não foi concebido nem pela semente de homem, nem pela corrupção do pecado, mas sem semente e sem corrupção Ele se revestiu de carne a partir de ti. E ele não cometeu nenhum pecado, e nenhum engodo foi encontrado em sua boca (1Pd 2, 22). E ele não só é bendito e sem pecado, mas, pela graça da sua divindade, deu à natureza da humanidade, que fora punida pela maldição, uma condição abençoada; e o santíssimo Cordeiro de Deus tirou os pecados do mundo.
O Magnificat
E então a admirável Maria, ornada de todas as graças, pois superava a natureza em todos os aspectos, sendo Mãe e Virgem, assim também aqui, como foi causa de profecia para outros, pronunciou ela mesma palavras cheias de profecia, cheias de graça, oração e teologia, pois estava cheia do Espírito Santo, como nos informa o Evangelista: Disse Maria: “Minha alma magnifica o Senhor, e meu espírito se rejubila em Deus, meu Salvador, pois Ele olhou para a humildade de sua serva. Eis que doravante todas as gerações me chamarão abençoada” (Lc 1, 46–48).
Sua alma estava cheia de toda humildade, de toda mansidão e de temor de Deus, e foi por isso que Deus, seu Salvador, olhou para ela; como disse o Profeta: Para quem hei de olhar, senão para o humilde, para o manso, para aquele que treme ante as minhas palavras? (Is 66, 2). Assim Ele achou Maria abençoada e olhou para ela, e viu que não havia ninguém como ela na raça humana. Por esta razão, notou que convinha habitar nela, e dela tomou um corpo humano e veio resgatar os perdidos. E o Altíssimo tornou santa a causa de sua Encarnação, e tornou abençoada a morada de sua divindade por todas as gerações. Com essas palavras, a Santa Mãe de Cristo confirmou as palavras ditas por Isabel a seu respeito e os anúncios do arcanjo pronunciados pelo Senhor: como diz ela, “bendita é aquela que acreditou que se cumpriria o que lhe foi dito pelo Senhor” (Lc 1, 45); pois essas coisas que o arcanjo anunciou foram ditas pelo Senhor, pelo qual havia sido enviado.
É por isso que aquela que recebera a graça agradeceu ao Senhor e glorificou o seu santo nome, e chamou-se a si mesma de humilde e serva. Disse ela profeticamente: “Doravante todas as gerações me chamarão abençoada” (Lc 1, 48). Verdadeiramente, as miríades de anjos e as gerações da humanidade a chamam abençoada, e aqueles que não a proclamam e não a glorificam não são contados entre os homens, mas são filhos da perdição e o quinhão do Diabo. No entanto, toda geração de homens verdadeiros a chamam abençoada e a gloriam, e a têm como auxiliadora e intercessora junto ao Senhor.
E as seguintes palavras estão cheias de tal graça e sabedoria: “Pois o Todo-Poderoso fez grandes coisas por mim, e santo é o seu nome. E a sua misericórdia está com aqueles que o temem, de geração em geração” (Lc 1, 49–50). O seu nome e a sua misericórdia são o seu Filho unigênito, que Ele enviou por misericórdia para com aqueles que o temem, para se encarnar na Virgem Santa, ter compaixão dos abandonados e buscar os perdidos. Mas como se diz que o Filho é o nome do Pai? É porque o Pai é conhecido pelo Filho, como disse o próprio Senhor: “Manifestei o teu nome para a humanidade” (Jo 17, 6).
E Ele mostrou força com seu braço (Lc 1, 51), ou seja, por seu Filho, pois Ele é chamado o braço de Deus (cf. Is 53, 1; Jo 12, 38), assim como é chamado o poder de Deus e Sabedoria de Deus (1Cor 1, 24), a imagem do poder (cf. Hb 1, 3), o selo imutável (cf. Jo 6, 27) e a mão direita do Altíssimo (cf. Sl 76, 11). Assim, Ele é chamado o braço de Deus, e através dele Deus Pai dispersou os soberbos nos pensamentos de seus corações. Derrubou os poderosos de seus tronos (Lc 1, 51–52), aqueles que eram os príncipes do mundo, os demônios malignos que, por causa da desobediência original e do peso do pecado, reinam sobre a raça humana e a subjugam pela força, com seus pecados e transgressões.
No entanto, quando o Filho de Deus veio, por vontade do Pai, e se revestiu de carne pelo Espírito Santo e pela Virgem Maria, Ele dispersou os soberbos e a altaneira arrogância dos demônios e os derrubou dos tronos de sua tirania, e os lançou aos grilhões das trevas e os entregou ao tormento, como diz o Apóstolo Pedro (2Pd 2, 4). Assim Ele destruiu os inimigos demoníacos, invisíveis e orgulhosos, e também os príncipes e reis ímpios que perseguem os fiéis; e os esmagou e derrubou de sua tirania, e tornou vãos seus planos.
Ele elevou os humildes; saciou de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias (Lc 1, 52–53). Esses simples e pobres pescadores, humildes e de pouca educação, desconhecidos e desprezados pelos homens, Ele os exaltou por palavras e por atos, e os tornou Mestres e Apóstolos de todo o mundo, a ponto de sua voz chegar ao mundo inteiro, e suas palavras aos confins da terra; Ele os fez serem honrados por reis e príncipes e entre inúmeros povos, e lhes deu o reino dos céus e os fez benditos na terra e também na eternidade.

Ele verdadeiramente exaltou os humildes e benditos Apóstolos com uma exaltação infinita. Saciou de bens os povos famintos dos gentios, que tinham fome da palavra de Deus, incultos e obtusos, pela pregação dos Apóstolos; saciou-os com o bom ensinamento do Espírito Santo e a compreensão dos mistérios divinos.
Mas os que eram ricos da vã e frívola sabedoria do mundo, os orgulhosos e arrogantes, estes foram despedidos de mãos vazias, como está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e a doutrina dos doutos abolirei (Is 29, 14). E assim Ele veio em socorro de seu servo Israel, em memória de sua misericórdia, como dissera a nosso pai Abraão e a seus descendentes para sempre (Lc 1, 54–55).
Veio em socorro de seu servo Israel, isto é, aqueles que creram na sua palavra e, por seu Filho Unigênito, foram dignos de se tornarem filhos de Deus, e que se tornaram as almas que contemplam a Deus, pois assim se traduz Israel: “a alma que contempla a Deus”. Estes são os descendentes de Abraão, e neles se cumpriu a promessa feita ao pai Abraão, em Cristo, como o primogênito que se encarnou por nós, e, por Ele, em todos os que creem em seu santo nome e por Ele se tornam filhos de Deus; como diz o teólogo e Evangelista João: A todos os que o receberam, deu o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1, 12).
Pois, como diz o Apóstolo Paulo, nem todos os que vêm de Israel são de Israel, tampouco são todos os descendentes de Abraão seus filhos, mas “através de Isaac seus descendentes serão chamados”. Isso significa que não são os filhos da carne que são os filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados entre os descendentes (Rm 9, 6–8), isto é, os que creram na palavra do Senhor e foram batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, sejam eles judeus ou gentios, e se tornaram cristãos e foram instruídos no ensinamento do Senhor. Estes são chamados de Israel e servos de Deus, e neles se cumprem as palavras da Santa Theotokos: “Ele veio em socorro de seu servo Israel, em memória de sua misericórdia”.
Por fim, Maria permaneceu na casa de Isabel por três meses, e voltou para casa (Lc 1, 56), porque depois da morte dos benditos pais da Virgem Santa, ela passou a considerar Isabel como uma mãe. É por isso que, ao receber a Anunciação de Gabriel, de imediato ela correu para saudá-la e saber o que lhe fora dito sobre ela pelo Senhor. E através do amor divino e do laço de parentesco, lá permaneceu por três meses, como diz o Santo Evangelho. Mas quando se aproximou a hora do parto de Isabel e ela compreendeu sua própria concepção, voltou para a casa de José; e a Virgem Santa não deixou que ninguém soubesse da Anunciação do anjo.
Trechos retirado do livro A vida da Virgem – Capítulo II.
De São Máximo Confessor.
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